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sábado, 10 de novembro de 2007

The City that never sleeps - Ep. 2

No Ground Zero

É estranha e arrepiante a sensação de deparar com todos os nomes inscritos e mensagens de dor, principalmente quando estamos no coração do mais competitivo bairro nova-iorquino. Pouco depois dos atentados foi colocada neste local uma rampa que permitia aos visitantes e uma visão do Ground Zero (expressão que significa "destruição total", utilizada pela primeira vez nos testes de explosões atómicas), ou seja, do imenso vazio deixado pela derrocada das Torres Gémeas. Mas esta plataforma gerou uma imensa controvérsia. Para alguns, era uma forma de homenagear as vítimas e não deixar esquecer o horror; para outros um incentivo à transformação do local num ponto de atracção turística e voyeurismo. E, de facto, ambos os pontos de vista são verdadeiros e pratica-mente impossíveis de evitar.

A rampa foi retirada, os curiosos podem hoje chegar ao gradeamento e espreitar para o gigantesco buraco, contornando o local por uma passagem que faz a ligação ao Winter Garden do World Finacial Center. Para quem nunca aqui esteve, é difícil visualizar a grandiosidade do WTC e as obras em curso já só fazem pensar no que irá nascer em seu lugar. Em Julho, as autoridades apresentaram seis projectos de memorial destinados a substituir as torres imaginadas pelos irmãos Rockefeller. Aqueles que sonhavam confrontar os terroristas com a construção de arranha-céus ainda mais altos ficaram desiludidos. Todas as maquetas propõem um jardim, uma praça, um passeio, a ideia geral parece ser deixar um espaço livre e de erguer "pequenos edifícios" (com não mais do que 80 andares, contra os 110 das Torres Gémeas) em redor. Mas, como é hábito, os projectos foram duramente criticados, o New York Times, classificou-os de "tristes e monótonos" e tudo está ainda em aberto.

A arte de viver em mudança

Se tiver curiosidade em saber o que mudou na cidade pergunte a um nova-iorquino. Quase invariavelmente, vão responder-lhe "nothing", com um encolher de ombros. Os primeiros tempos foram difíceis, mas a cada data que passou - um Thanksgiving, um Natal, um Fim de Ano - e nada mais aconteceu, as pessoas regressaram à sua vida normal e decidiram aceitar que tudo é vulnerável, até mesmo Nova Iorque. No máximo, dizem os optimistas, as pessoas deixaram de correr tanto, de pensar apenas em trabalho e tentam aproveitar mais o tempo, a vida, os amigos e a família.O mesmo pode e deve fazer, como turista. Programas alternativos não faltam. Embrenhe-se pela paleta de tons verdes e castanhos do Central Park ou atravesse a pé a Ponte de Brooklyn. Concluída em 1883, foi a maior ponte suspensa do mundo e a primeira em aço. A passagem para peões que se eleva acima do tabuleiro dos carros oferece uma vista deslumbrante, "um eficiente remédio para a alma", como dizia Walt Whitman. Do outro lado, existe uma nova cidade para descobrir. Originalmente, uma comunidade de imigrantes, Brooklyn é a nova coqueluche do momento e DUMBO (Down Under Manhattan Bridge Overpass) e BOBOCA (Boerum, Cobble Hill e Carrol Gardens), os bairros da moda.

A mudança é uma das características da Big Apple. Aqui tudo muda e tudo pode acontecer. Não muito longe, na Brooklyn Bridge, no South Sea Port District, está prevista a construção de um novo Guggenheim, desenhado por Frank Gehry, semelhante ao edifício de Bilbao, mas em maiores proporções. Uma alteração radical da paisagem portuária, como foi, a mudança provisória, em Junho deste ano, de um dos mais célebres museus de Manhattan, o MOMA-Museum of Modern Art, para Queens. Sob alta segurança, desfilou pelas ruas da cidade uma colecção com 100 000 pinturas, desenhos, esculturas, gravuras e fotos, 14 000 filmes e 140 000 livros e jornais. Desenhado por Yoshio Taniguchi, o novo edifício tem inauguração prevista para 2005. Enquanto isso, em Queens, pode ver uma mostra dos 75 mais simbólicos e queridos trabalhos da colecção do MoMA, onde se destacam Les Demoiselles d'Avignon (1907) de Pablo Picasso, e Dance (1909), de Henri Matisse.

Sugerimos-lhe também que guarde um domingo para assistir a um coro de gospel numa igreja baptista do Harlem e Morningside Heights. Estes coros religiosos, de ritmo meio funk, meio soul e rtythm'n'blues tornaram-se a rampa de lançamento para a renovação destes bairros. A mudança, há cerca de um ano, de Bill Clinton para a rua 125, no antigo gueto negro de Manhattan, foi o indício mais evidente de que algo está a mudar. Há poucos anos, os taxistas recusavam-se a entrar em determinadas ruas. Hoje abrem aqui restaurantes com as melhores críticas, a renovação de hotéis particulares têm destaque em revistas de decoração e constroem-se condomínios de luxo. Quem sabe o que acontecerá amanhã?

O último recenseamento confirma que, em dez anos, a imigração aumentou numa proporção inédita desde há um século: 30% dos habitantes nasceram no estrangeiro. Mais que nunca, a cidade é uma segunda Babel, onde se falam todas as línguas do mundo. Foram as pessoas, a diferença que fez de Nova Iorque o que é hoje. Por isso, nada como caminhar pelas ruas.

O melhor que a Big Apple tem para oferecer e o maior prazer que se pode sentir: o movimento das lojas, o frenesim das pessoas a passar, enquanto bebe um cappuccino sentado na montra de um café. A cada segundo que passa, uma história acontece. Alguém conseguiu um papel numa peça da Broadway, um emprego num restaurante, ou ganhou o primeiro milhão na bolsa.

Alguém chegou pela primeira vez à cidade e se apaixonou para sempre.

O Reverso da medalha

As dificuldades do turista que chega e sonha viver em Nova Iorque

1. Os pés sofrem em Nova Iorque. Convencemo-nos de que da 5ª avenida à 6ª é só um pulinho, de que as milhas são mais curtas que os quilómetros, quando na verdade as distâncias são impressionantes. Para percorrer e ver tudo, precisa de um skate ou de ser maratonista. Leve ténis e um daqueles banquinhos portáteis de levar a Fátima - se tiver coragem. No final do dia vai sentir que fez a via sacra e nem lhe vai apetecer sair à noite.

2. Os fumadores estão interditos na "grande maçã". Encontrar um sítio que não seja smoke free, em que acender um cigarro não seja um acto criminoso é uma missão (quase) impossível. Além disso, o voo de oito horas não ajuda quem não consiga ventilar os pulmões sem a ajuda do alcatrão. Nas ruas, pode dar largas ao vício mas, no Inverno, tirar as luvas para acender o cigarro deixa as mão congeladas e o isqueiro dificilmente acende nas esquinas ventosas. Fumar é também uma despesa acrescida: este é o estado onde se cobra o valor mais elevado dos Estados Unidos (3 vezes mais do que em Portugal). Se conseguir passar todas estas provações, ou se estiver inscrito num programa para deixar de fumar, Nova Iorque é o seu destino.

3. Jantar ou almoçar sentado é para esquecer. Os preços estão expostos na ementa, mas são terrivelmente enganadores. O que parece uma refeição de custo médio é inflaccionada pelas gorjetas, que se situam entre os 15 e os 20 por cento. E nada de confusões... se resolver dar uma de "tuga" e ser forreta, saiba que os empregados seguem o cliente até à rua para reivindicar a gorjeta que entre eles tem força de lei. E nem tem a desculpa para o mau serviço, porque, geralmente, é muito eficiente. Se tiver estômago para aguentar a vergonha... força!, caso contrário, tem sempre os cachorros quentes nas ruas, que apesar da fama não são nada de especial. Outra alternativa são os "delis", uma espécie de lojas de conveniência, onde pode comer a preços bem acessíveis.

4. Se vive num condomínio e está empenhado no banco para pagar a sua casa não espreite para os lofts nova-iorquinos. Os apartamentos do Soho ou casas da Village e na TriBeca vão fazer parecer que comprou casa na cidade errada. O mais modesto é um duplex, tem terraço nos topo do edifício a que eles chamam jardins de inverno. E o pior é que como não há persianas na cidade, o seu olhar vai escorregar, mesmo que não o deseje. Depois há as avenidas que acompanham o Central Park, com entradas de toldos aquecidos, onde apetece parar para aquecer as mãos. Os porteiros não acham piada, sobretudo se tentar espiolhar o interior. O único conforto é pensar que o preço médio de condomínio ronda os 600 euros!

5. As suas mãos vão andar permanentemente sujas. Mesmo que não toque em nada, o que é difícil, vai ter a sensação de que participou numa batalha de lama e de que perdeu. Na sua conquista civilizacional, Nova Iorque perdeu, algures, a luta contra a poluição. Por isso, sempre que possível, mantenha as mãos nos bolsos.

6. Não tente alugar um carro. O trânsito não anda, sobretudo fora das horas de ponta. Os taxistas têm mau humor, não alinham em conversas, nem estão interessados em saber se está de visita à cidade. Além disso, cobram extras por cada minuto parado no trânsito.

7. Todas as lojas vão chamar por si. O apelo ao consumo é aqui levado ao extremo. As lojas de roupa têm DJ's, as de decoração têm ar de casas de alta costura, as casas de alta costura e de museu interactivo. Pode tocar em tudo, revirar, apalpar. Também vai querer hibernar nas livrarias e comprar tudo ou quase tudo. O Natal é a altura ideal para visitar Nova Iorque. O único inconveniente é que a temperatura no interior das lojas não tem nada a ver com a temperatura da rua e dá é precisa alguma prática para despir o casaco, o cachecol e as luvas, para depois vestir tudo outra vez e repetir este ritual até à exaustão.

8. A não ser que ande de headphones, vai estar constantemente a ouvir sirenes dos bombeiros e de carros da polícia. O barulho é a música da cidade. E, já agora, lembre-se que está nos "States", faça um seguro antes de aterrar.

9. Nova Iorque não é o centro do mundo. É o umbigo, e os nova-iorquinos acreditam nisso como ninguém. Por isso, quando disser que vem de Portugal não se ofenda com a pergunta: "faz fronteira com a Argentina ou o Chile"?

ps1: Bem, depois deste díptico sobre a "grande maça", ou a "cidade das cidades", aventure-se por lá quem quiser...ou tiver bolsa para isso. Qualquer coisa, perguntem ao Pedro, que o sortudo já por lá passou, e recentemente...

ps2: Não costumo fazer dedicatórias nos meus artigos, mas esta também não foi uma semana normal, por isso cá vai a excepção à regra. Para a "madame" Maria Manuela, e os seus delírios da treta, cá vai um bem americano "UP YOURS"!

7 comentários:

miguel tomás disse...

Final perfeito para uma cidade mitica, que se continua a renovar, ano após ano. O Pedro é um sortudo, é o que é:)

luis ribeiro disse...

Porra, madrugaste hoje! Pena que ainda não existam as low-coast para tão longe, senão faziamos como as tuas idas a Londres: davamos uma saltada a NY para as comprasd de Natal.Aina ha-de chegar o dia.

E deixa lá as gajas em paz. Eu se fosse a ti tinha era publicado os mails delas e cada um julgava.

Paulo Pereira disse...

Eu? Eu estou sempre alerta, vigilante:)

Quem sabe não vamos ao Macy's esturrar os € do subsídio de Natal...

Qt às gajas, deixo-as em paz é o car***o! Qd se metem comigo, com acusações de m***a, fico passado e levam respostas contundentes. Farto de gentinha medíocre. Já não basta no mundo real, agora até aqui?

maria rosário disse...

É por isso que não vou a NY. Os hamburgueres e os cachorros dão cabo da dieta a qualquer uma que se preze...lol...pelo que vejo é proibitivo comer em qualquer lugar, pois para além do preço ainda nos arriscamos a ser severamente humilhados se a gorgeta não satisfizer os "simpáticos" criados.

E depois tem o frio, a poluição, a criminalidade, etc etc. Ná, vou mesmo para a Caparica outra vez:)

carlos mendes disse...

Cidade escrita, cantada e filmada milhões de vezes, mas sem esgotar o encanto. Única!

maria clarinda disse...

O que importa é que o vôo nem provocou jet-lag nenhum...ehehehe. Adorei esta visita a Nova Iorque, aproveitando o facto de o euro valer mais do que o dólar, vim bem ataviada de compras.

jussarita leite disse...

Quem não gosta dessa cidade, que fará parte do imaginário de milhões de pessoas? Não é uma cidade...é mesmo o Mundo, com tanta cultura misturada.

Gostei!