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sábado, 23 de junho de 2007

Moçambique - vertigem africana


O que dizer de Moçambique, eu que sou um nativo daquela terra? Pois, parece – e é – uma tarefa hercúlea. Existem, na minha percepção, dois Países distintos, apesar do nome idêntico. A Moçambique colonial, num ideal romântico, que se esfuma nas brumas da memória, e a Moçambique actual. Entre ambas, uma diferença abissal. Mas será mesmo assim?

Em alguns aspectos, Moçambique continua a mesma. A simpatia das suas gentes, a beleza estonteante e hipnotizante das paisagens, a diversidade cultural continuam inalteráveis, quais guardiões de tempos passados, que teimam em ser perpetuados.

A Moçambique que fez furor, nas décadas de 50, 60 e 70, aclamada como o “tesouro do Índico”, continua a ostentar algumas dessas qualidades. Praias de areias brancas, banhadas por águas cálidas a perder de vista, cidades com traços de arquitectura colonial, que farão lacrimejar os mais saudosos, uma gastronomia que não se preocupa com as modernices chamadas colesterol, triglicerídeos e um estilo de vida descontraído, que provoca a inveja em qualquer ocidental. Tudo isto, exclamará o leitor que, tal como eu, tenha vivido lá?



Sim, apesar da pergunta nada ter de descabido. Independência moldada na violência, uma guerra civil fratricida, logo após 1975 e a sua independência política, que culminou apenas em 1992, poderiam deixar marcas. E deixaram. Apesar de tudo o escrito atrás. Nos pólos urbanos, apesar do sólido clima de paz, é bem visível a consequência nefasta do conflito armado. À primeira vista, os edifícios arruinados parecem as vítimas maiores dessa guerra insana. Mas uma análise aprofundada mostra que as cicatrizes da guerra foram mais profundas no tecido social. Mas este País refaz-se, apesar de tudo. Procura um futuro, tentando esquecer o passado. Abrem-se fronteiras, criam-se condições propícias para investimento estrangeiro no turismo. E Moçambique tem tanto para dar: Bazaruto, Pemba, tudo alvo actual da cobiça e codícia de empresários sul-africanos. Afinal, dizem que Moçambique é o Brasil…de hà 30 anos atrás.

Não é para menos. 2500 quilómetros de costa, banhadas por águas de prodigiosos tons de azul, dezenas de ilhas, rodeadas de corais, praias desertas, de areias finas, um clima que varia entre o tropical, a norte, e o subtropical, mais a sul, espaços privilegiados para a observação de aves e animais, florestas de vegetação exuberante. Chega para deixar qualquer um a salivar por uma ida?
Se juntarmos a isso as áreas protegidas, como o
Parque Nacional da Gorongosa (uma das minhas ultimas lembranças, no alto dos meus 7 anos, pouco antes de abandonar o País), o Parque Nacional do Niassa, a Reserva de Elefantes, o cenário é quase paradisíaco. Quase. Infra-estruturas turísticas, actualmente, são quase incipientes, à excepção de Bazaruto, um Eden na Terra.

E chegamos à capital. Também aqui a dicotomia entre duas terras. A Lourenço Marques de antigamente, colonial, cosmopolita, com as suas avenidas bordejadas de árvores, os seus Hotéis de luxo – onde pontificava o Hotel Polana, um dos ex-libris da cidade – o ritmo de vida letárgico, deu lugar a Maputo, sinal notório de uma independência pouco pacifica. Uma sombra actual da outrora bela cidade. "... a piscina do hotel, o fio de coqueiros e o pôr-do-sol ... essa era a forma como o mundo se ordenava ... quando existia o paraíso”. A frase resume tudo. Saída da imaginação de Francisco José Viegas, escritor, colocada na boca da personagem Miguel, no romance “Lourenço Marques”. Essa cidade já não existe. Esfumou-se. Agora, Maputo é uma cidade sobrepovoada. De bairros degradados. De pobreza extrema. Mas a esperança está lá. Nos rostos negros, nos sorrisos afáveis, no processo de reorganização levado a cabo. Bares, restaurantes e discotecas vão tentando a sua sorte. A cidade começa a respirar melhor, na sua multiplicidade de raças e religiões, vivendo em harmonia.

Locais a visitar

Deixe-se andar, perdido no tempo, visitando, sem rumo certo. Apesar da pobreza, do desemprego, Maputo é, ainda, uma cidade relativamente segura. Um dos locais emblemáticos, onde pode verificar a miscelânea de culturas e etnias que compõem a actual sociedade moçambicana, fica no Mercado Central, na zona da baixa, carinhosamente tratado por Bazar. Tal como os souks marroquinos, também a visita ao local promete sensações únicas. A profusão de cheiros, junto com as cores de especiarias, dos legumes, peixes e demais produtos, inebriam os sentidos. As vendedoras, trajando as capulanas, um vestido tradicional africano, emprestam ainda mais cor às bancadas.

Também os dumbanengues são sinónimo de agitação e vertigem. Em qualquer esquina mais movimentada da cidade, realizam-se estas feiras informais, ilegais, mas bastante populares. O termo significa “confiança nas pernas”, numa alusão ao melhor argumento que os vendedores ilícitos têm quando aparece a polícia: correr mais rápido do que eles.

Recomenda-se também uma visita ao célebre bairro de Xipamanine, com as suas casas aristocráticas e de estilo colonial, ainda intactas. A feira que se realiza aqui é distinta de todas as outras: a profusão de mezinhas, de mil e um feitiços remete-nos para outra dimensão, onde a medicina tradicional dita leis.


O incontornável Hotel Polana, símbolo do passado glorioso da cidade. Com uma vista privilegiada para o oceano Índico, tem um ambiente de sofisticação único na cidade. O edifício, concebido na década de 20, é um monumento ao esplendor da cultura europeia, na época em que a opulência ditava o bom gosto. Apesar do declínio verificado após 1975, o Hotel sofreu obras recentes de remodelação, continuando a ostentar, orgulhosamente, as cinco estrelas, que fazem dele um dos melhores hotéis do continente africano. Não se iniba com a monumentalidade e entre. Aprecie o hall em mármore, os jardins luxuriantes, onde pontificam os coqueiros e delicie-se com a cozinha requintada e com a sua pastelaria fina: chá com scones e o cozido são dois clássicos. Se puder e se quiser refrescar, dê um mergulho na esplêndida piscina.
ps1: Devido à extensão do artigo, optei por dividi-lo em duas partes. Maputo/Lourenço Marques ainda tem muito por descobrir. A publicar brevemente...
ps2: Já aqui foi dito e reafirmo-o novamente. Todos os textos são sobre locais já visitados, por mim ou pelo Pedro. O mesmo se aplica às fotos publicadas, salvo rarissímas excepções. E a foto do Hotel Polana é uma delas. Não é da minha autoria, tendo sido retirada do site oficial do Hotel. Não quis, num artigo sobre a capital moçambicana, deixar de fora um dos clássicos da cidade. Espero que me perdoem.

25 comentários:

mag. disse...

Saudade. Saudade imensa. Eu, que nasci nessa País tão lindo, foi com enorme emoção que li, reli e tornei a ler o artigo. E as fotos, despertando mais saudades. Fantástico. Não tenho por hábito fazer comentários - opção pessoal - mas hoje resolv fazê-lo, depois de por aqui já ter andado.
Ah, e parabéns pelo blog...

Maria Clarinda disse...

Hoje atrevi-me. Fiz um comentário. É sempre delicioso viajar com vocês. De Moçambique a Nova Iorque, de Londres a Marrocos, sem esquecer os recantos portugueses. Excelentes relatos de vagens que me fascinam.

João Almeida disse...

Arrebentas-te a escala de elogios! Digno de uma publicação de viagens, e não exagero, Paulo. Fantástico texto, com uma descrição apaixonada dos locais e fotografias lindas. Somos transportados para essa África que tanto nos diz. Aguardo ansiosamente a segunda parte.

Jorge Almeida disse...

O artigo ansiado. E aqui está ele. Fantástico. Para quem, como eu, que nasci, cresci e vivi em Lourenço Marques - sempre Lourenço Marques - é de ficar arrepiado e emocionado, ao deparar com nomes conhecidos: o bairro de Xipamanine, o Polana, essas praias, recordando o ambiente de grande cidade da década de 60 e 70. Ai aquela marginal, iluminada, nas noites quentes, com a brisa do Pacífico a trazer um vento quente. Uma cerveja e um prato de camarões. Mal posso aguardar a continuação desse roteiro. Como dizes, Paulo, Lourenço Marques ainda tem muito para dar...
Também estiveste na Gorongosa? Ouvi dizer que aquilo está de rastos

Maria Rosario disse...

Ai, ai, vocês exageram:)
É redundante, soa a redundante, já foi dito cem vezes, mas aqui vai mais uma: espectacular blog!
Adorei a viagem por Maputo, ou Lourenço Marques, que eu não gosto de ferir susceptibilidades, que está minuciosa. E que bom devem ser os camarões, à beira-mar, com uma cervejinha, ó Jorge:)

Madalena Brandão disse...

Paulo, arrebatador relato de um País belíssimo. Essa fotografia da praia é simplesmente de fazer inveja. Adorei!

Armando Gil disse...

Melhoram de dia para dia! Divinal! Grande artigo, misturando a visão de um turista com sentimento, de quem viveu naquela terra. E essa descrição, feliz na minha opinião, transporta-nos para lá, para um local que faz suspirar muitos portugueses que por lá passaram.

Mauricio Longhini disse...

Pô cara, assim fico sem jeito. Logo agora que concorri ao post de viajante, vc me faz sentir vergonha do meu artigo:)
Parabens pela inspiração. Sensacional

Marina Castro disse...

África minha, sempre fascinante, exercendo a sua magia própria. Que terra fantástica, que capacidade de transcreveres em palavras essa viagem, transformando Lourenço Marques na personagem principal de um romance. Adorei. E li-o três vezes!

Carlos Mendes disse...

Passo a passo, foi assim que me senti, acompanhando o guia turistico, pelos recantos da cidade. Adorei cad momento. Pena que não deu para saborear uns camarõezinhos:)
E Bazaruto, será que vamos ter um post sobre esse paraíso?

Paulo Ferreira disse...

Paulo, um grande artigo, simplesmente cativante. Se juntarmos a essas palavras que nos transportam para outro continente umas fotografias cheias de cor, sedutoras, temos um artigo de excepção. Continuemos...venha de lá essa segunda parte!

Carla Pereira disse...

Bem, deixem-me entrar de fininho,que pode ser que ninguem de por mim:) Promessas são promessas, e se não aparecia por cá, o meu irmão(o autor) matava-me. Nada e criada, tal como ele (apesar de ele ser adoptado)em Moçambique, nascida em Lourenço Marques, foi com emoção que li, reli e me emocionei com as fotos e os textos. Tenho que confessar que o "míudo" tem jeito para isto...

Renata Ristori disse...

Que País tão lindo, Paulo! Que paixão a sua ao falar e escrever sobre essa terra mítica. Adorei...

Paulo Pereira disse...

Bem, antes demais, olá a todos! Fico contente com tantos elogios, mas não sou digno de tantos encómios, garanto-vos. O que prometo é continuar a trazer-vos bons relatos, dos sítios por onde já passei. Agora, por partes:
Jorge Almeida, não estive recentemente na Gorongosa. A 1ª e última vez foi em 1974. Posso dizer que foi marcante. É um dos períodos que melhor recordo dessa minha passagem por Moçambique. Para quem não sabe, a Gorongosa é uma reserva natural, onde coabitam milhares de espécies animais, incluindo os "big five": elefantes, leões, leopardos, búfalos e rinocerontes. Jorge, não é verdade que a Gorongosa esteja de rastos. Passou por um periodo muito complicado, tal como o resto do País, mas tem vindo a recuperar alguma da sua aura, como podem ver no link que coloquei no texto. Na altura, antes da independencia, rivalizava com o famoso Kruger Park. Agora, menos exuberante, mas já com algum turismo de qualidade.

Mauricio, não há que ter vergonha de nada. Muito pelo contrário. Foste o 2º corajoso a enviar um artigo sobre um local e, possi afiançar, está divertido. Será publicado, provavelmente, em Agosto.

Carlos Mendes: indelizmente, Bazaruto não faz parte do meu curriculum de viagens:) Poderá existir um post sobre isso, mas depende do Big Boss cá do sítio. Estamos a pensar lançar uma nova rubrica, chamada provisoriamente a Sugestão do Mês. Parece-me que, se avançarmos com isso, Bazaruto possa ser alvo de um artigo, face às sua condições naturais paradisiacas.

Bom fim de semana a todos,

Luis Ferreira disse...

Tá porreiro! É um dos sitios que adorava conhecer.
Gostei e venha de lá um sobre Bazaruto. Acho k é um boa ideia, pois assim sempre podem trazer novidades fesquinhas, todos os meses, e julgo que não desvirtua o blog. Muito pelo contrário, pois manterá-o sempre actualizado e com novidades constantes.

Abraço

Jorge Ribeiro disse...

Que País fascinante! Cor, calor, simpatia, tudo retratado num excelente artigo. Acredito que Moçambique irá recuperar a glória de outrora.

Bom fdsemana

Fabiana Veloso disse...

Maravilhoso! Se adorei o post sobre os States, amei este, sobre um continente que sempre me despertou paixões.
Aguardo a segunda parte...

Bjos,

José Fonseca disse...

Conforme prometido, resolvi passar por cá, novamente. E fi-lo porque, como disse da 1ª vez, isto está muito bom. Muito bom mesmo. Excelente artigo, sem dúvida. Para mim, o ponto alto do blog!

ritinha disse...

Achei o máximo. Navegava sem rumo, na net, e deparei com o vosso blog. Está muito bom.Parabéns!

Ana Melrinho disse...

Não nos vais fazer sofrer muito, pois não Paulo? Quero a continuação dessa viagem mágica. Sou capaz de jurar que ao ler, senti essa brisa de que falam aqui, a bater-me no rosto. Que felicidade para quem lá viveu, naqueles tempos áureos. Tenho amigas minhas, nascidas lá, que irão adorar ler isto...

P.S: E não pagam nada pela publicidade gratuita, meus caros:)

Catarina disse...

Alertada por uma amiga, vim correndo. Não podia perder um artigo sobre a minha terra. Gostei. Ainda há muito para dizer, mas está um excelente artigo. Vê-se mque feito por quem gosta desta terra, que foi marcado por ela. Já se diz que uma vez em África, africano para sempre. Excelente!

Cadu disse...

Belo post! É aquilo k um post sobre viagens deve ter: informação, belas fotos e otimo artigo. Adorei!

Cristina Monteiro disse...

Olá, pela 1ª vez. Alertada pela Melrinho, lá vim eu ver a 8ª maravilha do Mundo:) E as palavras são dela. Adorei Paulo. Nasci em Lourenço Marques, por isso nada do que contas e escreves me surpreende. Criou foi um saudosismo enorme, pois fiz a minha adolescencia lá. E que passeios intermináveis eu dava, depois do final das aulas, à beira-mar, numa cidade que atrevo-me a dizer era única. Um ambiente de paz, de sofisticação, de charme. Nunca mais lá voltei, depois de ter saido em 1975. Prefiro guardar as recordações assim, como Lourenço Marques. Para mim, Maputo não existe, por muito que isso possa chocar alguém.

P.S: Já agora, nasceste lá?

Bjos

Ricardo Melo disse...

Olha, também andaste por esses lados? Eu estive em Angola e confesso que fiquei apanhado pelo bichinho de África. Apesar de tudo. Da pobreza, da degradação, mas apraz-me ver que, ainda assim, as pessoas são afáveis, simpáticas, algo marcante.

Manuel Araujo disse...

Paulo, parabéns pelo brilhatismo do artigo. Dá gozo lê-lo. Excelente!