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terça-feira, 26 de junho de 2007

Visitando Lourenço Marques


Continuando o nosso périplo pela capital moçambicana, outro local que merece uma visita demorada, é a Estação de Caminhos de Ferro, testemunha perene dos tempos áureos. O edifício, construído em 1910, teve uma assinatura que fez furor: Eiffel. As suas estruturas de ferro e os pilares em mármore permanecem, teimosamente, intactos. O interior exibe duas locomotivas a vapor originais. É nesta estação que partem os comboios para a fronteira do Zimbabwe, antiga Rodésia, e as cidades sul-africanas de Durban e Joanesburgo.

Importa reter algo que tenho esquecido de mencionar. Uma mera curiosidade. A cidade, baptizada de Lourenço Marques, deveu o seu nome ao primeiro navegador português a fazer o reconhecimento da região. Até finais do século XIX , a zona não passava de um mísero porto, disputado pela sua elevada localização estratégica por austríacos e ingleses. Quando, em 1898, se
descobre ouro em Wiiwatersrand e são estabelecidas ligações ferroviárias com a África do Sul, é que se transformou no entreposto mais movimentado da colónia, acabando por substituir a capital, até aí instalada na Ilha de Moçambique.

Voltando ao passeio, depois deste preâmbulo, nada melhor do que determo-nos no mais afamado restaurante da cidade, o Piri-piri, cujos churrascos se tornaram míticos. Aproveite para relaxar, observar quem passa, deixar os sentidos livres, para que estes possam absorver o máximo da atmosfera citadina. E é bom ver que, apesar de um colonialismo que deixou marcas, não existe vontade de renegar o passado. Perfeitamente integrados no quotidianos dos seus habitantes, mas longe de ostentarem o charme de outrora, restaurantes e pastelarias, cujos nomes se mantêm há décadas, continuam nos lugares de sempre. A pastelaria Continental, onde era hábito as colegiais pararem, depois de um dia de aulas (agradeço à minha mãe a paciência em recordar nomes, locais e pormenores), o Hotel Cardoso, com a sua fantástica vista sobre a Baía, ou o café-restaurante Costa do Sol, um dos mais antigos e emblemáticos pontos de encontro. Abriu portas em 1938, resistindo a todas as alterações políticas, à guerra civil e a restrições financeiras. Orgulhosamente, continua a apregoar a confecção do melhor camarão grelhado de…África (já estou a salivar).



Se juntarmos uma pratada desse petisco divinal a uma Laurentina (a mais popular cerveja de Moçambique) está meio caminho andado para a felicidade suprema.

Maputo tem também uma diversão nocturna afamada e diversificada. Vários bares e discotecas, onde prevalece a atmosfera e a música africana.

Não perca uma visita a um local que resume a diversidade de Maputo: a Feira Popular. É um legado dos tempos do colonialismo, atraindo sempre multidões desejosas de diversão e de…boa comida. Sim, os restaurantes são o principal chamariz da Feira, em detrimento dos carrosséis, algo periclitantes e em condições de segurança que deixam algo a desejar. E, se juntarmos aos aromas, uma boa marrabenta (dança de par muito lenta), então percebe-se o sucesso da Feira.

Como se deslocar

O conselho é óbvio: em excursões organizadas pelo hotel ou agência de viagem. Caso estas não existam, de táxi. A outra opção não é muito recomendável. Apesar de como disse acima, Maputo ser uma cidade relativamente tranquila, não abuse da sorte. Os “chapas”, o transporte público da capital moçambicana, são carrinhas de caixa aberta, que transportam o maior número de pessoas. Célebres por dois motivos: os numerosos acidentes que provocam, pelas elevadas velocidades a que circulam, e pelos furtos frequentes dos turistas que, ávidos de emoções fortes, nelas circulam. Se o fizer, por sua conta e risco, não leve nada nos bolsos, nem nada à vista ostensivamente caro, como por exemplo, máquinas fotográficas, câmaras de vídeo, etc.

INFORMAÇÕES ÚTEIS

Documentos necessários: Passaporte e visto de entrada, que pode ser pedido no consulado moçambicano em Portugal com o mínimo de cinco dias de antecedência (100 euros) ou no aeroporto à chegada a Maputo, na Direcção Nacional de Migração, por cerca de metade do preço, embora possa demorar algumas horas. Se pretender passar a fronteira até África do Sul ou Zimbabwe não se esqueça de pedir visto múltiplo.

Moeda: Metical, mas o dólar americano e o rand sul-africano são aceites em muitos locais. É recomendável que se leve dinheiro, uma vez que a utilização do cartão de crédito ainda não está vulgarizada.Câmbio: Um dólar equivale a 23 ou 24 meticais. Consoante o local.

Indicativo: 00 258 (Moçambique) + indicativo da cidade ou província, ou seja, 1 no caso de Maputo, 23 quando se telefona para Bazaruto e 72 para Pemba. As linhas em Moçambique estão congestionadas com frequência , pelo que se aconselha a utilização dos serviços da operadora internacional. O número é o 171 da Portugal Telecom.

Diferença horária: Mais duas horas do que em Portugal Continental.

Clima: Tropical, moderado a Sul. As temperaturas variam entre os 16º (mínimo) no Inverno a Sul e os 40º (máximo) no Verão a Norte.

Saúde: Antes de partir deverá marcar consulta com o seu médico de família ou mesmo fazer uma consulta do viajante, a fim de proceder à profilaxia da malária, doença grave e muito comum em Moçambique. Também deve ter as vacinas do tétano e da febre tifóide em dia e levar consigo spray antimosquitos e protector solar. Para evitar diarreias só deve beber água engarrafada, fruta descascada e evitar alimentos crus.

Quando ir: É preferível viajar fora da estação das chuvas, que se prolonga entre os meses de Novembro a Abril.TransportesA rede de transportes aéreos é razoável, mesmo dentro do país, se bem que dispendiosa. Os transportes ferroviários não dispõem ainda de uma estrutura credível e se optar por alugar automóvel deve ter em atenção a condição das estradas, as condições climatéricas e a existência de postos de combustível ao longo do caminho que pretende tomar. Deve transportar sempre água, alimentos, uma caixa de primeiros socorros e ter em atenção que a rede de estradas é muito irregular, principalmente no Norte.O transporte rodoviário urbano e interurbano está na maioria dos casos entregue a operadores semiprivados, sendo bastante demorado nos percursos mais longos.

Aluguer de viaturas: EuropCar (sr. Manuel Nunes) – reservas pelos telefones 00 258 1 466172/466182; 00 258 1497338 ou 00 258 82302833 (telemóvel); E-mail: europcar@virconn.com

Onde dormir• Hotel Polana, Av. Julius Nyerere, 1380, P.O. Box 1151 Maputo, Tel.: 00 258 1 491001/9, Fax: 00 258 1 491480; E-mail: res@polana-hotel.com.mz; http://www.polana-hotel.co.mz/.

Onde e o que comprar:Um dos melhores locais para comprar artesanato é a Praça 25 de Junho aos sábados de manhã, especialmente batiks e esculturas. Os melhores produtos frescos são encontrados no Bazar, na Av. 25 de Setembro, em frente do qual se encontra a casa Elefante, com uma variedade considerável de capulanas e tecidos tradicionais. No Centro Comercial Polana existe uma loja especializada em artesanato mais sofisticado e uma livraria onde poderá encontrar alguma literatura sobre Moçambique.

sábado, 23 de junho de 2007

Moçambique - vertigem africana


O que dizer de Moçambique, eu que sou um nativo daquela terra? Pois, parece – e é – uma tarefa hercúlea. Existem, na minha percepção, dois Países distintos, apesar do nome idêntico. A Moçambique colonial, num ideal romântico, que se esfuma nas brumas da memória, e a Moçambique actual. Entre ambas, uma diferença abissal. Mas será mesmo assim?

Em alguns aspectos, Moçambique continua a mesma. A simpatia das suas gentes, a beleza estonteante e hipnotizante das paisagens, a diversidade cultural continuam inalteráveis, quais guardiões de tempos passados, que teimam em ser perpetuados.

A Moçambique que fez furor, nas décadas de 50, 60 e 70, aclamada como o “tesouro do Índico”, continua a ostentar algumas dessas qualidades. Praias de areias brancas, banhadas por águas cálidas a perder de vista, cidades com traços de arquitectura colonial, que farão lacrimejar os mais saudosos, uma gastronomia que não se preocupa com as modernices chamadas colesterol, triglicerídeos e um estilo de vida descontraído, que provoca a inveja em qualquer ocidental. Tudo isto, exclamará o leitor que, tal como eu, tenha vivido lá?



Sim, apesar da pergunta nada ter de descabido. Independência moldada na violência, uma guerra civil fratricida, logo após 1975 e a sua independência política, que culminou apenas em 1992, poderiam deixar marcas. E deixaram. Apesar de tudo o escrito atrás. Nos pólos urbanos, apesar do sólido clima de paz, é bem visível a consequência nefasta do conflito armado. À primeira vista, os edifícios arruinados parecem as vítimas maiores dessa guerra insana. Mas uma análise aprofundada mostra que as cicatrizes da guerra foram mais profundas no tecido social. Mas este País refaz-se, apesar de tudo. Procura um futuro, tentando esquecer o passado. Abrem-se fronteiras, criam-se condições propícias para investimento estrangeiro no turismo. E Moçambique tem tanto para dar: Bazaruto, Pemba, tudo alvo actual da cobiça e codícia de empresários sul-africanos. Afinal, dizem que Moçambique é o Brasil…de hà 30 anos atrás.

Não é para menos. 2500 quilómetros de costa, banhadas por águas de prodigiosos tons de azul, dezenas de ilhas, rodeadas de corais, praias desertas, de areias finas, um clima que varia entre o tropical, a norte, e o subtropical, mais a sul, espaços privilegiados para a observação de aves e animais, florestas de vegetação exuberante. Chega para deixar qualquer um a salivar por uma ida?
Se juntarmos a isso as áreas protegidas, como o
Parque Nacional da Gorongosa (uma das minhas ultimas lembranças, no alto dos meus 7 anos, pouco antes de abandonar o País), o Parque Nacional do Niassa, a Reserva de Elefantes, o cenário é quase paradisíaco. Quase. Infra-estruturas turísticas, actualmente, são quase incipientes, à excepção de Bazaruto, um Eden na Terra.

E chegamos à capital. Também aqui a dicotomia entre duas terras. A Lourenço Marques de antigamente, colonial, cosmopolita, com as suas avenidas bordejadas de árvores, os seus Hotéis de luxo – onde pontificava o Hotel Polana, um dos ex-libris da cidade – o ritmo de vida letárgico, deu lugar a Maputo, sinal notório de uma independência pouco pacifica. Uma sombra actual da outrora bela cidade. "... a piscina do hotel, o fio de coqueiros e o pôr-do-sol ... essa era a forma como o mundo se ordenava ... quando existia o paraíso”. A frase resume tudo. Saída da imaginação de Francisco José Viegas, escritor, colocada na boca da personagem Miguel, no romance “Lourenço Marques”. Essa cidade já não existe. Esfumou-se. Agora, Maputo é uma cidade sobrepovoada. De bairros degradados. De pobreza extrema. Mas a esperança está lá. Nos rostos negros, nos sorrisos afáveis, no processo de reorganização levado a cabo. Bares, restaurantes e discotecas vão tentando a sua sorte. A cidade começa a respirar melhor, na sua multiplicidade de raças e religiões, vivendo em harmonia.

Locais a visitar

Deixe-se andar, perdido no tempo, visitando, sem rumo certo. Apesar da pobreza, do desemprego, Maputo é, ainda, uma cidade relativamente segura. Um dos locais emblemáticos, onde pode verificar a miscelânea de culturas e etnias que compõem a actual sociedade moçambicana, fica no Mercado Central, na zona da baixa, carinhosamente tratado por Bazar. Tal como os souks marroquinos, também a visita ao local promete sensações únicas. A profusão de cheiros, junto com as cores de especiarias, dos legumes, peixes e demais produtos, inebriam os sentidos. As vendedoras, trajando as capulanas, um vestido tradicional africano, emprestam ainda mais cor às bancadas.

Também os dumbanengues são sinónimo de agitação e vertigem. Em qualquer esquina mais movimentada da cidade, realizam-se estas feiras informais, ilegais, mas bastante populares. O termo significa “confiança nas pernas”, numa alusão ao melhor argumento que os vendedores ilícitos têm quando aparece a polícia: correr mais rápido do que eles.

Recomenda-se também uma visita ao célebre bairro de Xipamanine, com as suas casas aristocráticas e de estilo colonial, ainda intactas. A feira que se realiza aqui é distinta de todas as outras: a profusão de mezinhas, de mil e um feitiços remete-nos para outra dimensão, onde a medicina tradicional dita leis.


O incontornável Hotel Polana, símbolo do passado glorioso da cidade. Com uma vista privilegiada para o oceano Índico, tem um ambiente de sofisticação único na cidade. O edifício, concebido na década de 20, é um monumento ao esplendor da cultura europeia, na época em que a opulência ditava o bom gosto. Apesar do declínio verificado após 1975, o Hotel sofreu obras recentes de remodelação, continuando a ostentar, orgulhosamente, as cinco estrelas, que fazem dele um dos melhores hotéis do continente africano. Não se iniba com a monumentalidade e entre. Aprecie o hall em mármore, os jardins luxuriantes, onde pontificam os coqueiros e delicie-se com a cozinha requintada e com a sua pastelaria fina: chá com scones e o cozido são dois clássicos. Se puder e se quiser refrescar, dê um mergulho na esplêndida piscina.
ps1: Devido à extensão do artigo, optei por dividi-lo em duas partes. Maputo/Lourenço Marques ainda tem muito por descobrir. A publicar brevemente...
ps2: Já aqui foi dito e reafirmo-o novamente. Todos os textos são sobre locais já visitados, por mim ou pelo Pedro. O mesmo se aplica às fotos publicadas, salvo rarissímas excepções. E a foto do Hotel Polana é uma delas. Não é da minha autoria, tendo sido retirada do site oficial do Hotel. Não quis, num artigo sobre a capital moçambicana, deixar de fora um dos clássicos da cidade. Espero que me perdoem.

quinta-feira, 10 de maio de 2007

Moçambique


Moçambique - Para quem não sabe, aqui fica uma pequena lição de geografia. Moçambique é um País da costa oriental da África Austral, limitado a norte pela Zâmbia, Malawi e Tanzânia, a leste pelo canal de Moçambique e pelo Oceano Índico, a sul e oeste pela África do Sul e ainda a oeste pela Suazilândia e Zimbabwe. A capital é Maputo, rebaptizada pela pretalhada depois da independência. Para mim, continua a ser Lourenço Marques (sim, nasci em Moçambique, mais propriamente em Quelimane). É o 35º País com maior área - 801.590 km2 - e o 55º mais populoso - se não morreu ninguém entretanto são à volta de 19.104.000 - e a moeda utilizada é o metical. É independente desde 25 de Junho de 1975.

Rio Matola - O rio Matola é um rio com cerca de 60 km de extensão, correndo de norte para sul, na província moçambicana de Lourenço Marques (qual Maputo qual quê), desaguando junto das cidades de Lourenço Marques e Matola, no estuário do Espírito Santo.